Grandes Estados Africanos : Disfuncionais ou com Potencial de projecção de poder?

Em 2006, Cristopher Clapham, Jeffrey Herbst e Greg Mills publicaram um livro com o título ‘’Grandes Estados Africanos’’ ( Big African States).

Nesta obra incluíam-se dois Estados do Corno de África – Sudão e Etiópia ;  Angola , a Nigéria, a Republica Democrática do Congo e a África do Sul. Os Seis Grandes.

Em 2015, o Instituto para os Estudos de Segurança (ISS da abreviatura em inglês) no âmbito do Projeto Futuros Africanos elegeu como os Cinco Grandes os seguintes Estados: dois do Norte de África – Argélia e Egito, um do Corno de África – Etiópia – um da África Central – a Nigéria e um da África Austral – a África do Sul. Os Cinco Grandes.

Na obra de Clapham, Herbst e Mills à exceção da África do Sul,  estes grandes Estados eram apresentados como disfuncionais e como tal sujeitos às forças centrifugas que poderiam conduzir à sua desintegração.

No caso da Etiópia, em 1991 a antiga colónia italiana – a Eritreia – a 24 de Maio, de forma ainda não oficial via coroados os sacríficios da guerra de 30 anos pela sua auto-determinação.  A Eritreia na sequência das indecisões relativamente ao seu futuro depois da derrota das forças de Mussolini pelos aliados nesta região, viria a ser integrada de forma  ilegítima pela Etiópia enquanto 14ªProvíncia na sequência da controversa resolução da ONU que decidiu que o futuro da antiga colónia italiana deveria passar por uma federação com a Etiópia. No caso do Sudão depois do período de transição previsto no Acordo de Paz Global, um referendo no Sul decidiria dos destinos desta região. Assim a 9 de julho de 2011, depois de um referendo em janeiro do mesmo ano, o Sudão do Sul tornou-se um Estado soberano de pleno direito. A obra chegava a conclusões divergentes em cada um dos casos considerados.

Quais os critérios de seleção dos Grandes Estados de África que num período de uma década conduziriam a conclusões distintas para não dizer diametralmente opostas nos casos em particular da Etiópia e da Nigéria.

Estes dois últimos Estados são apresentados como potências emergentes e considerados verdadeiros epítomes das tendências para a emergência de África no contexto da tendência da ‘’Emergência do Resto’’ face ao declínio da ordem internacional arquitetada pelo Ocidente e liderada pelos EUA.

Etiópia & Nigéria são apresentados como potências emergentes e considerados verdadeiros epítomes das tendências para a emergência de África no contexto da tendência da ‘’Emergência do Resto’’.

No estudo do ISS chega-se à conclusão que África retém atualmente 8 por cento do poder global e em 25 anos terá 11 por cento. Dos Grandes Cinco apenas a Nigéria poderá nos próximos 25 anos tornar-se num ator global significante. Com efeito, a Nigéria é caracterizada por projetar poder de uma forma inferior às suas capacidades e peso ou influência, daqui a 25 anos o estudo defende que poderá finalmente assitir-se a um alinhamento entre as capacidades da Nigérias e a sua projeção de poder. Já nos casos da África do Sul e da Etiópia são caracterizados pela orientação oposta em termos de política externa: ambos projetam poder e influência acima das suas capacidades. Daqui a 25 anos espera-se assistir a um declínio em termos de projeção de poder por parte da África do Sul e a um aumento no caso da Etiópia.

Estas teses, independentemente do mérito individual das análises de cada caso,  concorrem para a reprodução de representações simplistas e ideias erróneas em relação a África como se pudessemos projetar num Espelho o Futuro do continente a partir das trajetórias individuais dos Grandes Estados Africanos.Face  à  imensidão, complexidade e diversidade dos Estados e sociedades em África sobrepõem-se os imperativos de identificar Tendências e Líderes Regionais capazes de potenciar e representar a tendência de ascenção do Continente.  No final da Guerra Fria, África era apresentada como  o Continente falhado ou sem futuro, uma tradução que não captura na totalidade o significada da expressão ‘’ hopeless continent’’. Na primeira década do século XXI África é apresentada como o Continente em Ascenção.

As vagas de afro-pessimismo e afro-otimismo não são uma novidade e para além da efemeridade das modas ou tendências de representação do Continente a única saída é ancorar as nossas análises em estudos de caso para entendermos as trajetórias particulares de Estados e sociedades inseridos nas arenas políticas regionais e globais.

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